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A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA IMACULADA CONCEIÇÃO NO MUNICÍPIO DE CANTAGALO - PR EM 1984

 

Acadêmico: Arnaldo Antonio de Souza Temochko[1]

Orientador: Dr. Flamarion Laba da Costa[2]

RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem como tema central a criação da Paróquia Imaculada Conceição situada no Município de Cantagalo – PR. O objeto de pesquisa são os fatos ocorridos entre os anos de 1983 e 1984 que desembocaram na instalação da referida paróquia dentro daquele Município. A análise central concentra-se no processo de criação de uma paróquia enquanto necessidade de uma comunidade que se organiza e se mobiliza para que tal fato ocorra, isto é, em vista do seu crescimento populacional, de sua estrutura física e da melhoria do atendimento religioso a paróquia é criada para melhor satisfazer as necessidades da comunidade local. As fontes históricas utilizadas foram os livros tombo da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro do Município de Virmond que era a paróquia que atendia a chamada comunidade de Cantagalo antes desta tornar-se também uma paróquia, além dos livros tombo da Paróquia Imaculada Conceição do Município de Cantagalo e depoimentos orais de moradores do local e de lideranças comunitárias que foram sujeitos ativos no processo em questão.

 

PALAVRAS-CHAVE: Paróquia. Livro-tombo. Religião.

 

ABSTRACT

This Completion of Course Work (TCC) has as central theme the creation of Immaculate Conception Parish, located in the city of Cantagalo - PR. The object of search the facts that occurred between the years 1983 and 1984 that resulted in the installation of that parish in that space. The central analysis focuses the process of creating of a parish as a need for a community that is organized and it is mobilizing for this fact occurs, that is, in view of population growth, physical structure and the improvement of religious attendance the parish is designed to better meet the needs of the local community. The sources used were the historical tombo books Parish Our Lady of Mount Of course the city of Virmond parish that  met this community before it became a parish, tombo books Immaculate Conception Parish after became parish and oral testimony of the local residents and community leaders that have been active in this case.

 

KEYWORDS: Parish. Tombo Books. Religion.

 

1.INTRODUÇÃO

            A Paróquia Imaculada Conceição, situada no Município de Cantagalo-PR teve como data oficial de sua criação o ano de 1984. Porém, o processo de sua criação se torna complexo quando tentamos estabelecer um diálogo entre os moradores do local e os padres que dele participaram. Entretanto, antes de nos adentrarmos mais diretamente à pesquisa, precisamos esclarecer que em todo trabalho historiográfico há uma intenção. A própria escolha do tema ao qual o historiador pretende dedicar-se é a primeira marcação das intencionalidades que o levaram para tal. Michel de Certeau afirma:

 

Certamente não existem considerações, por mais gerais que sejam, nem leituras, tanto quanto se possa estendê-las, capazes de suprimir a particularidade do lugar de onde falo e do domínio em que realizo uma investigação. Esta marca é indelével. No discurso onde enceno as questões globais, ela terá a forma do idiotismo: meu patoá representa minha relação com um lugar. (CERTEAU, p.65, 2002)

           

O historiador acaba por imprimir a sua marca na pesquisa em que realiza, ou seja, suas intenções, seus pré-conceitos, suas idéias de um modo geral são explícitas, já num primeiro momento, no modo como o mesmo concebe a pesquisa. A própria escolha do tema a ser pesquisado e o tratamento que o historiador dará à sua pesquisa marcam, como afirma Certeau, a sua relação com um lugar.

 

Toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de produção sócio-econômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração que circunscrito por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de observação ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Ela está, pois, submetida a imposições, ligada a privilégios, enraizada em uma particularidade. É em função deste lugar que se instauram os métodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questões, que lhes serão propostas, se organizam. (CERTEAU, p.66, 2002)

           

Definido por Certeau como “Um lugar social” é neste meio que a pesquisa historiográfica se realiza presa a interesses e peculiaridades que lhe dão o caráter particular. Inegavelmente sendo esta pesquisa fruto de nossas intenções particulares cabe agora situar-lhe no universo em que a mesma está inserida.

O tema está inserido no campo da História das Religiões que surgiu como disciplina específica, com objeto e metodologia próprios, a partir do século XIX e início do XX quando, mesmo com a defesa do caráter racionalista da sociedade ocidental com o surgimento do Iluminismo na Europa, persistiram formas de expressão classificadas ainda como religiosas. A partir desta época a religião será entendida menos como ideologia passageira e mais como elemento fundamental das sociedades. A sua importância nos estudos sociológicos ganha mais relevância quando no início do século XX surge a própria sociologia também como disciplina específica.

No Brasil a produção historiográfica dentro da área de História das Religiões tem-se desenvolvido de forma mais ávida nas duas últimas décadas. Abordando os mais diversos temas que dizem respeito as manifestações religiosas do povo brasileiro, inúmeros trabalhos vem se desenvolvendo. Ivan Aparecido Manoel afirma que

nos últimos vinte e cinco anos, a história das religiões firmou-se na academia brasileira, na graduação e na pós-graduação. Como resultado disso, têm-se tanto a redação de monografias, dissertações, teses, livros e artigos, como inúmeras participações em congressos nacionais e internacionais, bem como a própria criação da ABHR[3]. Os temas abordados por essa produção abrangem um espectro muito grande, incluindo as discussões sobre as religiosidades populares e as institucionalizadas, os problemas sociais e políticos ao redor das religiões, as questões teológicas e filosóficas, o cotidiano e o institucional, a longa e a curta duração. (MANOEL, p.11, 2006)

           

Mesmo com todas as mudanças históricas e o auge da ameaça à história das religiões no Iluminismo, a religião persistiu como uma constante na história da humanidade. Houve quem tentasse reduzi-la a “aparelhos ideológicos do Estado”[4] sem considerar suas especificidades e seu modo próprio de se constituir, porém como afirma Manoel:

Ao reduzirem as religiões à condição de “aparelhos ideológicos”, essas vertentes relegaram a dialética entre o todo e as partes, e se afastaram de um vasto campo de trabalho que, bem investigado, oferece chaves inestimáveis para a interpretação e a intelecção do conjunto da história humana. (MANOEL, p.10, 2006)

 

A pesquisa documental sobre a qual embasamos o trabalho são os livros-tombo[5] das paróquias Imaculada Conceição de Cantagalo – PR (objeto de estudo) e Nossa Senhora de Monte Claro de Virmond – PR. Analisamos o livro-tombo da paróquia de Virmond pelo motivo de que, antes de ser criada a paróquia, o Município de Cantagalo era atendido por aquela paróquia, chamada capela ou comunidade. Ao analisar os livros-tombo concentramos o olhar sobre uma historiografia produzida pelo clero. No presente material encontramos os relatos escritos a próprio punho pelos padres das paróquias nos quais os mesmos imprimiram de modo particular as suas opiniões e concepções sobre a criação das paróquias. Os livros-tombo são também valiosa fonte de informação, neles estão contidos datas bem precisas, descrição de fatos como nome e sobrenome de pessoas. Algumas vezes encontramos informações até mesmo como horário em que os fatos se deram. Muitas vezes os livros-tombo são verdadeiras listas de fatos ocorridos. Normalmente são divididos pela concepção temporal: divisões maiores em anos e divisões menores em dias.

            Além da análise dos livros-tombo realizamos algumas entrevistas com pessoas antigas da comunidade que participaram e/ou assistiram ao processo de criação da nova paróquia. Entrevistamos um ministro da eucaristia, pois estes tinham uma função importante dentro da comunidade, porque respondiam pela comunidade eclesiástica na falta do padre: atendiam aos doentes, presidiam as exéquias, realizavam celebrações e serviam como um ponto de referência e ligação entre a comunidade e o padre, e uma catequista que se dedicava ao ensino do catecismo em preparação à primeira comunhão e à crisma das crianças e adolescentes. Procuramos saber dos entrevistados como eles viram o processo de criação da paróquia, se eles também participaram e como a comunidade, na prática, foi-se transformando em sede de paróquia.

            Nesta área chamada História Oral nos apoiamos nas obras de Verena Alberti[6] e Paul Thompson[7]. Ambos escreveram verdadeiros manuais que muito auxiliaram desde a como proceder na escolha dos entrevistados até na transcrição e interpretação das entrevistas realizadas. Thompson afirma que há três formas de construção da história oral: narrativa de única história de vida, coletânea de narrativas e análise cruzada. Neste trabalho a que nos servirá será a forma de análise cruzada onde “a evidência oral é tratada como fonte de informações a partir da qual se organiza um texto expositivo.” (THOMPSON, p. 304, 2002).

            Por fim cruzando as informações da fonte documental com as fontes orais podemos fazer alguns apontamentos que enriqueçam uma reflexão sobre quais foram os fatores que levaram à criação da Paróquia Imaculada Conceição no Município de Cantagalo em 1984.

 

2. LIVROS-TOMBO: A VISÃO DO CLERO SOBRE A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA.

            Carlos Bacellar no artigo Uso e mau uso dos arquivos na obra Fontes Históricas organizada por Carla Bassanezi Pinsky afirma que:

 

Os arquivos de natureza religiosa no Brasil são detentores de grandes conjuntos documentais, nem sempre facilmente acessíveis. Os mais notórios são os da Igreja Católica, cujos acervos estão reunidos nas cúrias diocesanas, sob os cuidados de serviços de arquivo em geral bastante precários e desconfortáveis, que costumam improvisar o atendimento quando do surgimento inesperado de um pesquisador. (BACELLAR, p.39, 2005)

           

Provável é a alternativa de que o autor não teve experiências muito agradáveis no que diz respeito ao uso deste tipo de arquivos, porém não foi a mesma concepção que construímos durante a pesquisa. Sempre que necessário os arquivos puderam ser bem explorados e o acesso sempre fácil sobre os mesmos.

            O que faremos neste ponto do presente trabalho não é uma análise completa dos livros-tombo. Procuramos enumerar e pontuar os fatos que porventura possam contribuir para a reflexão que realizamos acerca da criação da paróquia de Cantagalo.

            O primeiro registro encontrado no livro-tombo da paróquia de Virmond referente àquela que possivelmente seria a capela de Cantagalo está no livro n.º 1 na pág. 4 (verso) onde no número de ordem 16 está escrito:

 

O Revmo. Mons. Vigário Capitular da Prelazia em data de 5/12/1939 concedeu licença ao Revmo. Sr. Pe. João Gualberto Pogrzebs para benzer a capela de N. S. Aparecida no Canta Galo, provisionando-a. Assim como no mesmo decreto está lavrado o assento da benção da dita capela em 8 de dezembro de 1939. (Livro Tombo n.º 1, Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR, p. 4)

           

Este é o primeiro registro que consta no livro-tombo da paróquia de Virmond. Pela descrição dos fatos, entende-se que provavelmente a partir da data citada a capela de Cantagalo começou a ser atendida pelos padres da referida paróquia. A primeira questão que aparece neste momento é a seguinte: se a paróquia é dedicada e intitulada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, por que consta no registro o título da capela como sendo Nossa Senhora Aparecida? Seria talvez pelo fato de no dia 08 de dezembro ser comemorado o dia da Imaculada Conceição? Possivelmente. Porém não há indícios de haver uma tradição de ser o padroeiro da capela o santo comemorado no dia da sua benção. Exemplo disso é o que encontramos na página 7 do mesmo livro: “Em quinze de agosto, após a Santa Missa das 11 horas, foi solenemente erguido o Cruzeiro no lugar aonde surgirá uma Capela na localidade denominada Campo das Crianças. Foi escolhido por Padroeiro da Capela São Francisco de Assis.”[8] Percebemos por essa passagem que o padroeiro foi escolhido no momento de criação da capela diferentemente do acontece em Cantagalo onde já existia a capela e, ao que consta, a padroeira é que foi substituída.

Provavelmente no início do ano de 1954, de acordo com o mesmo livro-tombo, desta vez porém implícita a questão da data, ocorreu uma divisão dentro da paróquia de Virmond sendo criada mais uma paróquia no Município de Marquinho. A mesma fonte cita que Cantagalo continua pertencendo a Virmond[9].

Continuando a percorrer a fonte não encontramos mais nada que mencionasse a capela de Cantagalo, apenas mais relatos de experiências na paróquia por parte dos sacerdotes. Construções de igrejas, pavilhões, casa paroquial, visitas pastorais dos bispos, conflitos na comunidade, entre outros, são os fatos descritos.[10]

À página 23 do livro-tombo, que se refere ao início das atividades da paróquia no ano de 1983, encontramos uma passagem que nos impõe outra questão. “Aos 15 de abril chega pe. Renato Gotti de Curitiba, deixando a paróquia do Bom Pastor de Vista Alegre, para assumir a paróquia de Virmond – Cantagalo, substituindo pe. Fernando Fonaciari...”[11] Quando o autor da citação menciona Virmond–Cantagalo sugere a idéia de que já nesta época – 15 de abril de 1983 – se pensava em uma nova paróquia para Cantagalo.

Logo em seguida na página 24, com data de 02 e 03 de outubro (mesmo ano 1983) encontra-se a citação em que na 1.ª Assembléia Diocesana em Guarapuava o bispo D. Frederico anuncia oficialmente que será criada uma nova paróquia em Cantagalo.

Dom Frederico anuncia a futura (próxima) constituição da nova Paróquia de Cantagalo que irá incluir o território da paróquia vacante de Marquinho. Virmond, mesmo continuando sendo paróquia com seu próprio vigário, passará a ser co-paróquia de Cantagalo. O vigário de Cantagalo será coadjutor de Virmond, e o vigário de Virmond será coadjutor de Cantagalo. Cada vigário residirá na sua própria sede. (Livro – Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR, p. 24)

           

Além de fazer o anúncio dito oficial na Assembléia, D. Frederico impõe as condições sob as quais as duas paróquias permanecerão. Quando usa os termos ‘co-paróquia’ e ‘vigário coadjutor’ entendemos que no início as paróquias deveriam caminhar juntas numa caminhada única, porém com o atendimento de dois padres.[12]

E, finalmente, à página 25, quando do início do ano 1984, com data de 12 de fevereiro, encontramos o relato do Pe. Renato Gotti sobre a criação da nova paróquia de Cantagalo:

2 de fevereiro: fundação da nova paróquia de Cantagalo-Marquinho tendo como co-paróquia Virmond, conforme o decreto de fundação. A nova paróquia abrange todo o território do Município de Cantagalo (1800 kq). O vigário é pe. Franco Bertazza, xaveriano. Além de vigário de Cantagalo, ele é também coadjutor da paróquia de Virmond. O vigário de Virmond, é coadjutor de Cantagalo. Duas paróquias com duas sedes. Os dois vigários, conforme a intenção declarada expressamente repetida vezes, devem agir em conjunto. O Sr. Bispo ficou de estudar melhor, junto com os dois vigários, a situação das capelas. A concelebração foi presidida pelo Sr. Bispo, dom Frederico Helmel, que administrou o Sacramento da Crisma. O coral “N. Sra. do Monte Claro” de Virmond, embelezou a celebração com a sua arte polifônica. (Livro – Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR, p. 25)

 

            Percebe-se que mais uma vez e com muito destaque, o clérigo cita a cumplicidade que deveria existir entre as duas paróquias. Cita novamente os termos ‘co-paróquia’ e ‘vigário coadjutor’ como aquele que quer que se registre muito bem essas condições.[13] Essa intenção do Pe. Renato Gotti poderia ser tanto pela questão do atendimento pastoral que em dois padres facilitaria como também poderia ser um medo em relação a questão financeira, isto é, com a diminuição do número de comunidades a paróquia de Virmond teria menos contribuição por parte das mesmas.

            Partiremos agora à análise do livro-tombo da paróquia de Cantagalo. Permanecem dúvidas e questões sobre elementos analisados no livro-tombo da paróquia de Virmond sobre as quais foram embasadas as entrevistas que realizamos com os moradores do local, em geral lideranças da comunidade que viveram este momento de transição para a nova paróquia.

            Como já citamos e as fontes nos confirmam o primeiro pároco da então criada paróquia Imaculada Conceição de Cantagalo foi o Pe. Francesco Bertazza, chamado também popularmente por Franco. É ele quem inicia a escrita do livro-tombo da paróquia de Cantagalo a partir da página 5. Anterior a esta página encontramos relatos acerca da paróquia de Marquinho, porém não há indícios e nem assinaturas de quem possa ter escrito.[14]

            Nas primeiras páginas do livro-tombo da paróquia de Cantagalo, o Pe. Franco Bertazza relata igualmente ao Pe. Renato Gotti que para a criação da paróquia foi celebrada uma missa com a presença do bispo e demais padres vindos de outras paróquias e cidades. Curioso notar que o então pároco da paróquia que recém se criara segue narrando fatos do seu dia-a-dia na casa paroquial como a dispensa da empregada e a falta de veículos.[15] Pe. Franco segue seu relato contando como assumiu as comunidades da paróquia de Marquinho após a morte do pároco de lá. Conta como havia grandes diferenças entre as comunidades deixadas por Virmond e as comunidades deixadas por Marquinho, inclusive tais diferenças eram vistas igualmente no povo:

 

Encontrei uma grande defasagem entre as capelas ex-Virmond (bem organizadas com Ministros da Eucaristia – catequese) e as de Marquinho bem mais atrasadas em todo sentido. Também o povo é diverso: mais aberto, alegre e moderno o de Cantagalo; fechado, o de Marquinho. (Livro – Tombo n.º 1 da Paróquia Imaculada Conceição, Cantagalo-PR, p. 5)

 

            Pe. Franco deixa bem claro nestas primeiras páginas a antipatia que o povo de Marquinho tinha em relação a ele. Chega a mencionar que logo que chegou percebeu que o povo de Marquinho não gostava dele e que o teriam acusado diante do bispo.

            Entre os acontecimentos importantes, Pe. Franco cita a visita de D. Frederico (bispo diocesano) a todas as comunidades, a implantação do dízimo em 1988, a construção e a inauguração da Igreja Matriz em 1988, a construção da casa paroquial no mesmo ano, a construção do centro catequético de 1989 a 1991, a construção de um depósito, a inovação da fachada da secretaria, acabamento da parte exterior da Igreja em 1991 e 1992, duas ordenações presbiterais, a implantação da Renovação Carismática Católica e a chegada das irmãs para o trabalho na catequese. O que nos chama a atenção é que todos são fatos bem relevantes para a recém criada paróquia. E ao passo que poderíamos nos perguntar sobre a questão financeira, logo vem a resposta, pois várias vezes o reverendo cita donde é que se veio o custeio das obras. Quando fala da construção da casa paroquial entre parênteses cita: “toda a construção com o meu dinheiro” e novamente quando fala da construção do centro catequético aponta novamente entre parênteses: “com o meu dinheiro e 31% da Alemanha”[16]

            Por ser o primeiro pároco e sendo o município também com pouco tempo de existência, natural é o fato do padre ter grande importância social:

 

As relações com as autoridades, queira com as da primeira administração, queira com a de Fabrício dos Santos foram ótimas. A palavra do Padre é bem aceita como também os conselhos. Teve umas ameaças depois das eleições de 88 por parte de alguns políticos que perderam (P.M.D.B.) mas tudo passou. Por estas eleições de 92 os partidos me propuseram de me apresentar como candidato único e de união mas recusei. Lembro que no mês de setembro de 86 recebi o título de “cidadania honorária” de Cantagalo. (Livro-Tombo n.º 1 da Paróquia Imaculada Conceição, Cantagalo-PR, p. 6)

 

            Percebemos aqui a grande influência que o papel do padre tem dentro da sociedade cantagalense. Além da palavra do padre ser bem aceita no meio político os partidos chegaram a unir-se para lançar o padre como prefeito da cidade e mesmo com a recusa por parte dele ainda o agraciam com o título de cidadão honorário. Percebe-se uma época onde a religião católica exerce grande influência sobre esta sociedade, pois o papel do líder chega a ser confundido quando da proposta em eleger o padre prefeito, ou seja, a liderança religiosa exerce tanta influência que se quer transformá-la em liderança política.

            Ao abordarmos esta questão da relação de poder existente entre o meio político e o meio religioso encontramos uma relevante reflexão de Pierre Bourdieu:

A estrutura das relações de poder entre o campo religioso e o campo do poder comanda, em cada conjuntura, a configuração da estrutura das relações constitutivas do campo religioso que cumpre uma função externa de legitimação da ordem estabelecida na medida em que a manutenção da ordem simbólica contribui diretamente para a manutenção da ordem política, ao passo que a subversão simbólica da ordem simbólica só consegue afetar a ordem política quando se faz acompanhar por uma subversão política desta ordem. (BOURDIEU, p.69, 1996)

           

            Bourdieu afirma que o campo religioso legitima a ordem política quando entre estes não há subversão, ou seja, neste dado momento do processo de criação da paróquia havia esta legitimação de ambos os campos do poder a tal ponto do conceito de liderança confundir-se em ambos. A entrega do título de cidadão honorário ao Pe. Franco confirma que não há a subversão nessas trocas simbólicas.

            Dominique Julia faz-nos pensar ainda em outra questão presente nesta análise da fonte escrita quando ressalta a imparcialidade que o historiador das religiões deve ter nos procedimentos:

O que interessa ao operador, ao analista, não é a condição de verdade das afirmações religiosas que estuda, mas a relação que mantêm essas afirmações, esses anunciados com o tipo de sociedade ou de cultura, que os explicam. Tornaram-se, assim, sintomas, sinais de uma coisa diferente daquela que pretendem dizer. Quer trate do clero, quer das práticas de piedade ou das teologias, nós interrogamos os fenômenos religiosos em função daquilo que são suscetíveis de ensinar-nos de uma certa condição social; quando, justamente, essas teologias eram, para os contemporâneos o próprio fundamento da sociedade. (JULIA, p.108, 1976)

 

Neste primeiro momento pudemos analisar, de uma forma geral, como o clero concebeu a criação da nova paróquia em Cantagalo. Pudemos perceber que a concepção do clero é muitas vezes fria e calculista no sentido que analisa os fatos do ponto de vista prático e administrativo. Não encontramos nas citações referências afetivas sobre os fatos, mas sim referências efetivas sobre dados os momentos em que os fatos foram narrados.

            A hierarquia da Igreja Católica também está presente constantemente. Sempre há menções as ordens dos bispos e mesmo a questão das transferências de padres de um lugar para outro. Isto inclusive traz uma grande dificuldade à análise dessas fontes tanto no que diz respeito à crítica interna ou externa. Na crítica externa encontramos a primeira dificuldade que é a questão da escrita, os livros-tombo são documentos escritos a próprio punho o que torna difícil e até mesmo incompreensível seu entendimento. Como estes documentos são escritos por pessoas diferentes e em épocas diferentes a crítica interna também encontra sérios problemas de interpretação.

            Entretanto, os livros-tombo constituem-se de uma rica e vasta documentação que deve ser cada vez mais bem analisada, pois sua construção tal como se dá permite tais análises.

 

3. HISTÓRIA ORAL: A VISÃO DO POVO SOBRE A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA

            Após permearmos um pouco a visão do clero, passaremos agora a uma tentativa de examinarmos a visão que a comunidade teve sobre a criação da paróquia. Para tanto, nos utilizaremos do método da História Oral que, como o próprio nome aponta, busca na evidência falada, através de depoimentos, uma construção da História.

Ao mesmo tempo, a história oral implica, para a maioria dos tipos de história, uma certa mudança de enfoque. Assim, o historiador da educação passa a preocupar-se com as experiências dos alunos e estudantes, bem como os problemas dos professores e administradores. O historiador militar e naval pode olhar, para além da estratégia em nível de comando e do equipamento, para as condições, recreações e moral dos soldados rasos e dos convés inferior. O historiador social pode passar dos burocratas e políticos para o mundo dos pobres, e aprender como o pobre via o funcionário da assistência social e de que modo sobrevivia a suas negativas. (THOMPSON, p. 26, 1992)

 

            Concordando com Paul Thompson é neste sentido que utilizamos a História Oral: uma mudança de enfoque. Em duplo sentido. Em primeiro lugar mudamos o enfoque da evidência escrita para a evidência oral, pois se até o momento analisamos os livros-tombo, agora analisaremos as entrevistas com moradores da comunidade. Em segundo lugar mudamos o foco de uma história escrita pelo clero para uma história concebida pelos fiéis, ou seja, da história vista de cima vamos agora para a história vista de baixo.

            Nosso primeiro entrevistado é o Sr. Arnaldo Jorge de Souza, 71 anos, casado, mora em Cantagalo, ele era Ministro da Eucaristia da comunidade antes da criação da paróquia. “Eu rezava o culto, distribuía a comunhão que eu buscava no Virmond, ajudava na escolha dos cânticos para o culto, na escolha das leituras bíblicas. Muitas vezes levava a comunhão para os doentes que não podiam vir à capela.”[17] A pessoa do Ministro da Eucaristia representava o padre na sua ausência dentro da comunidade. Era ele quem presidia as funções eclesiásticas no dia-a-dia. Embora todas as comunidades tivessem um grupo de pessoas que cuidava das questões econômico-administrativas chamados “conselho” ou “diretoria”, a palavra do Ministro da Eucaristia tinha muita relevância, pois ele administrava a parte religiosa da comunidade.

            Nossa segunda entrevistada é a Sra. Irene Mattos, 68 anos, viúva, mora em Cantagalo. Dona Irene era a catequista da comunidade. “Nossa função era preparar as crianças para a Primeira Comunhão. A catequese era dada na escola.”[18] A principal função das catequistas era ensinar às crianças o catecismo a fim que depois de passarem por uma avaliação feita pelo padre, poderiam ou não receber a Primeira Comunhão.

Inclusive o tempo que estava o Pe. Pedro ele exigia bastante, cobrava; mas era uma cobrança tão boa que os alunos aprendiam e a gente também se dedicava muito mais sabendo que ele vinha e queria saber se o aluno estava mesmo preparado ou não estava. Nossa como ele ajudava! Como ele vinha! Como ele participava! (Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR)

 

            Podemos perceber por estes pequenos fragmentos das entrevistas que nossos sujeitos eram pessoas bem ativas dentro da comunidade, ambos eram líderes, o que nos auxilia na compreensão do processo.

“A história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. (...) Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança. (THOMPSON, p.44, 1992)

 

            De acordo com Thompson, este método lança mão da experiência vivida por cada pessoa de forma muito espontânea, ou seja, mesmo buscando com a história oral preencher certas lacunas deixadas pela evidencia escrita, às vezes isso não é possível. Como já citamos anteriormente, o livro-tombo número 1 da paróquia de Virmond aponta a comunidade de Cantagalo como tendo o título de Nossa Senhora Aparecida[19], neste aspecto se impôs um questão sobre a padroeira da comunidade e posteriormente da paróquia. Dona Irene chegou à comunidade em data posterior a criação da comunidade: “Na verdade, nesta época a gente nem morava aqui. A gente veio bem mais tarde. Quando eu conheci a capela já era Imaculada Conceição”[20]. O Sr. Arnaldo também não conseguiu dar nenhuma informação devido mesmo a uma impossibilidade cronológica e a falta de lembranças precisas:

Não me lembro. Eu sei que desde que me conheço por gente a capela era dedicada à Nossa Senhora Aparecida. Eu me criei numa localidade chamada Balsa Velha, localidade próxima ao rio Cavernoso. Então o padre vinha de Virmond a cada três meses para rezar a missa, e como não tinha capela na nossa comunidade ele rezava a missa na casa dos meus avós onde eu me criei. Digamos, ele marcava a missa na terça-feira e já vinha na segunda de tarde. De noite ele rezava a novena, posava, e no outro dia ele rezava a missa. Fazia batizados e casamento quando tinha. Foi nesta comunidade que eu comecei a participar. Quando eu comecei a vim na aula que eu tinha uns 18 ou 19 anos, aí que eu comecei a freqüentar aqui a comunidade Nossa Senhora Aparecida, aqui no Cantagalo. Mas sempre com esse nome. O padre vinha a cavalo para rezar a missa e geralmente, isso eu me recordo, ele rezava lá na nossa comunidade, na casa; e aqui no Cantagalo, na capela Nossa Senhora Aparecida. Ele marcava, digamos, terça-feira no Cavernoso, e quarta ele marcava aqui no Cantagalo para depois ele voltar à Virmond. Aqui já tinha a capela. (Entrevista concedida por Arnaldo Jorge de Souza no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR)

 

            Na lembrança do Sr. Arnaldo percebemos que a capela foi sempre dedicada à Nossa Senhora Aparecida e o mesmo nem sequer tem lembranças de como a comunidade passou a se chamar Imaculada Conceição, nome com o qual tornou-se paróquia. Paul Thompson afirma que a área da História das Religiões pode ter grande contribuição da história oral “pois, neste caso, as fontes orais podem ser utilizadas para distinguir as crenças e práticas dos adeptos comuns das de seus líderes.” (THOMPSON, p.110, 1992) situação que repete-se neste aspecto do processo pois podemos perceber que o que realmente importa aos fiéis da comunidade é o título de Nossa Senhora como padroeira. A mudança de “Aparecida” para “Imaculada” nem se quer foi notada pelos moradores como também não foi registrada pelos padres nos livros-tombo. Neste sentido ainda, Thompson continua: “É possível, também, estudar a “religião popular”, as superstições e os rituais de nascimento, casamento ou morte dos não-religiosos – áreas essas, pela própria natureza, em sua maior parte fora do alcance da documentação institucional religiosa recente.” (THOMPSON, p.110, 1992) E embora não se trate de uma situação dos “não-religiosos”, igualmente é um assunto não tratado pela documentação institucional.

            A criação do Município de Cantagalo se deu em 12 de maio do ano de 1982. Este foi um fato marcante para a criação da paróquia, visto que sendo um Município o mesmo precisava agora da sua própria paróquia.

Cantagalo cresceu também. Quando era comunidade eram poucos moradores. O padre vinha uma vez por mês. O povo achava que estava bom. Depois o padre vinha mais seguido e a partir do momento que foi crescendo, é lógico que precisava mais. Um atendimento melhor. Eu acho que hoje está bem melhor, claro! (Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR)

 

            Igualmente ao testemunho oral de Dona Irene, o Sr. Arnaldo também usa palavras associadas a uma idéia de que com um crescimento urbano o atendimento religioso deveria ser melhor também: “O lugar foi crescendo, foi evoluindo e aí as pessoas mais religiosas que tinham interesse pelo lugar conseguiram a paróquia.”[21] O que por outro lado demonstra que o interesse de se ter uma paróquia não foi tão coletivo assim quando o nosso entrevistado usa o termo “pessoas mais religiosas que tinham interesse pelo local”[22]. Olhando por esse ângulo, o processo de criação da paróquia ganha uma nova visão mais presa a interesses políticos do que populares, o que torna ainda mais visível a relevância da evidência oral para o trabalho quando “transformando os ‘objetos’ de estudo em ‘sujeitos’, contribui para uma história que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais verdadeira.” (THOMPSON, p.137, 1992)

            Ambos os entrevistados concordam na opinião de que o atendimento religioso melhorou muito com a criação de uma paróquia para o Município: “Mais facilidade para o povo freqüentar. As missas já começaram a ser todo o domingo no lugar do culto, começaram a participar mais gente. O padre logo veio morar aqui. Então isso ajuda muito.”[23] E se realmente se tratava de uma estratégia política, a Sra. Irene nos confirma que poderia ser feliz em seu objetivo: “O pouco que a gente via conversar era que o povo estava muito feliz que ia ser paróquia.”[24]

            Entretanto, mesmo com as prováveis facilidades que a paróquia poderia trazer, a história oral evidencia a participação ativa que cada pessoa tem como sujeito real na construção da história social como também na sua própria história de âmbito mais pessoal:

A gente trabalhava com dificuldade, a gente não tinha material, a gente não tinha nada, a gente ia lá com a força e a coragem. Mas estava bom, a gente trabalhava com gosto, com prazer. Eu fazia faculdade no sábado a tarde. Então de manhã eu ia dar catequese e de meio dia eu pegava o ônibus, porque a aula de sábado a tarde era muito importante. Então a gente fazia um sacrifício, mas eu repeti muitas vezes isso aí. A gente quando vai, vai meio reclamando, mas quando volta, volta tão feliz. Muitas vezes eu falei isso aí: a gente volta tão contente, parece que aquilo dava uma paz. Eu trabalhava com gosto, com prazer... Era uma doação que valia muito pra vida da gente. E hoje muita coisa mudou. Tem o Centro Catequético, tem mais condições, tem coordenadora, tem material... Mas também depende de como a pessoa trabalha, com gosto, com vontade... Se a pessoa se doa mesmo, tem resultado tanto pra própria pessoa que está se doando quanto pra quem recebe. (Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR)

 

            Dona Irene ressalta sobretudo que não importa a época em que determinado trabalho é realizado, mas sim o empenho e a dedicação que cada um deposita no desempenho do mesmo, e no relato, a mesma descreve a maneira com a qual ela conseguia desempenhar a sua função de catequista. De acordo com Thompson, nesse sentido, a história oral pode contribuir para formar seres humanos mais completos à medida que confirma a pertença de uma pessoa a um determinado lugar em uma determinada época. “Paralelamente, a história oral propõe um desafio aos mitos consagrados da história, ao juízo autoritário inerente a sua tradição. E oferece os meios para uma transformação radical do sentido social da história.” (THOMPSON, p. 44, 1992)

 

4. CONCLUSÃO

            Após estas breves análises dos livros-tombo e das entrevistas realizadas, resta-nos à guisa da conclusão desta pesquisa, apresentar alguns apontamentos acerca do trabalho realizado visto que este era o objetivo inicial do trabalho de pesquisa: contrapor as visões do clero com as do povo. A contraposição que se propõe não pretende ser um juízo de valor sobre qual a visão que estaria mais correta, mas apresentar alguns elementos para uma reflexão que possa contribuir com o estudo histórico-social do Município de Cantagalo.

            De acordo com as fontes históricas que analisamos[25], podemos apresentar uma primeira reflexão que diz respeito à lacuna não preenchida com relação a questão da padroeira da comunidade e posterior paróquia. Percebemos através da pesquisa que não há dados sobre esta questão nos registros dos livros-tombo e mesmo indagados sobre o assunto, nossos entrevistados não puderam nos dar informações precisas.

            Porém, sobre a criação da paróquia, objetivo central do trabalho, evidenciamos que a criação se deu por um fator político muito grande. Nos livros-tombo pudemos perceber o quanto os meios político e religioso se confundem em várias partes e, a história oral após a análise do material escrito, nos confirma. O processo de criação da paróquia não se deu sob a pressão popular, pois os entrevistados, membros ativos e lideranças da comunidade, nem se quer souberam das decisões que levaram a comunidade a tornar-se paróquia. Um outro aspecto que reforça esta afirmação nos é dada por Pierre Bourdieu:

 

O conjunto das transformações tecnológicas, econômicas e sociais, correlatas ao nascimento e ao desenvolvimento das cidades e, em particular, aos progressos da divisão do trabalho e à aparição da separação do trabalho intelectual e do trabalho material, constituem a condição comum de dois processos que só podem realizar-se no âmbito de uma relação de interdependência e do reforço recíproco, a saber, a constituição de um campo religioso relativamente autônomo e o desenvolvimento de uma necessidade de “moralização” e de “sistematização” das crenças e práticas religiosas. (BOURDIEU, p.34, 1996)

 

            Bourdieu afirma que o campo religioso atua na sistematização e moralização das crenças e práticas religiosas como uma necessidade que o aparecimento e desenvolvimento das cidades possui de facilitar a imposição de um sistema de divisão de trabalho e nesse sentido, particularmente, a criação da paróquia surge como um auxílio na constituição e legitimação da criação do Município como que se não se concebesse um Município sem a sua própria paróquia ou sem o seu próprio vigário. Podemos dizer então que a paróquia surge no espírito da criação do Município.

A aparição e o desenvolvimento das grandes religiões universais estão associados à aparição e ao desenvolvimento da cidade, sendo que a oposição entre a cidade e o campo marca uma ruptura fundamental na história da religião e, concomitantemente, traduz uma das divisões religiosas mais importantes em toda sociedade afetada por esse tipo de oposição morfológica. (BOURDIEU, p.34, 1996)

 

            De acordo com o autor esta aparição das grandes religiões está associada ao desenvolvimento das cidades visto a grande oposição existente entre campo e cidade que marca toda a História das Religiões. Neste ponto concordam os entrevistados quando relatam que a paróquia foi criada devido as transformações que a própria comunidade estava passando quando da criação do município e esta reclamava um maior atendimento religioso.

            Concluindo este trabalho, o que percebemos é que não se pode concluir esta pesquisa, pois de acordo com Dominique Julia:

Voltamos, portanto, ainda uma vez, às condições de produção da pesquisa. O historiador, descobre, no interior de seus métodos de análise, limites que o organizam e que têm raiz num passado bem anterior a seu próprio trabalho. A elucidação historiográfica é, portanto, a ferramenta por meio da qual assumir a herança que pesa sobre o domínio preciso de que nos ocupamos e traçar os seus limites: analisar os postulados que fundamentam os seus procedimentos constitui, para o historiador, confessar simplesmente a localização de seu discurso num espaço sócio-cultural preciso, e medir o que determina a sua diferença com relação aos discursos precedentes. (JULIA, p.110, 1976)

 

            A produção da pesquisa se dá num dado lugar onde o historiador envolve-se com o seu tema, isto é, o mesmo acaba por assumir a herança que traz consigo antes mesmo de que seu discurso seja localizado no espaço sócio-cultural onde ele está inserido e, aliás, antes mesmo que ele inicie a referida pesquisa. Partindo do princípio que o historiador apaixona-se pelo seu tema e torna-se cúmplice do mesmo, a presente pesquisa sobre a criação da Paróquia Imaculada Conceição no Município de Cantagalo está apenas começando...

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BACELLAR, Carlos. Fontes documentais: Uso e mau uso dos arquivos. In: PINSKY, Carla B. (org) Fontes Históricas São Paulo: Contexto, 2005.

BOURDIEU, Piere. A economia das trocas lingüísticas. Trad. Sergio Mireli. São Paulo: EDUSP, 1996.

CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Trad. Maria de Lourdes Menezes. 2.ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

JULIA, Dominique. A religião: História Religiosa. In: LE GOFF, Jacques. NORA, Pierre. História: Novas abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

MANOEL, Ivan Aparecido. FREITAS, Nainora Maria Barbosa de. (organizadores) História das Religiões: desafios, problemas e avanços teóricos, metodológicos e historiográficos. São Paulo: Paulinas, 2006.

THOMPSON, Paul. A voz do passado – História Oral. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeir

 

[1] Graduando do 4.º ano do curso de História da UNICENTRO.

[2] Doutor em História do Brasil, professor do Departamento de História da UNICENTRO.

[3] Associação Brasileira de História das Religiões.

[4] Louis Althusser em um livro denominado Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado.

[5] Relato que os padres escrevem durante a sua permanência na paróquia.

[6] Manual de História Oral, Editora FGV, 2005.

[7] A voz do passado, Editora Paz e Terra, 2002.

[8] Livro Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR, p. 7

[9] Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR.

[10] Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR.

[11] Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR, p. 23

[12] Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR.

[13] Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR.

[14] (Livro Tombo n.º 1 da Paróquia Imaculada Conceição, Cantagalo-PR.

[15] Livro – Tombo n.º 1 da Paróquia Imaculada Conceição, Cantagalo-PR.

[16] Livro – Tombo n.º 1 da Paróquia Imaculada Conceição, Cantagalo-PR p. 6.

[17] Entrevista concedida por Arnaldo Jorge de Souza no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[18] Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[19] Livro-tombo n.º 1 da Paróquia Nossa Senhora de Monte Claro, Virmond-PR.

[20] Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[21] Entrevista concedida por Arnaldo Jorge de Souza no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[22] IDEM nota 21.

[23] Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[24] Entrevista concedida por Irene Mattos no dia 30/06/2008 em Cantagalo-PR.

[25] Livros-tombo e entrevistas.


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